Posted by: timoteopinto | Abril 23, 2008

Manifesto Nonadista

ou
O Grande Manifesto Que Fala Sobre Nada, Ou Quase Isso.

por Reverendo Beraldo

Só o nonada nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Humoristicamente.

NONADA. O fim de toda a Filosofia. Fim do Pensamento: a bomba atômica explodindo na mente humana e fazendo escorrer miolos liquefeitos pelo nariz.

Conexões junguianas pós-apocalípticas de humor negro: sincronicidade. Nonada. Fatigamo-nos de tanta hipocrisia filosófica: admitam, há coisas além de vós.
Ora, não sentem e esperem por respostas! Corram atrás delas, mas não achem que elas virão. Pois elas virão, mas virão nonada.

Certa vez disseram ser contra todos os importadores de consciência enlatada. Somos contra os importadores, os exportadores, os usuários. E somos importadores, usuários, exportadores da nossa.

Contra a intelligentsia. Os velhacos acadêmicos pseudo-intelectuais leitores de parnasianos em banheiras ricamente trabalhadas – comunistas, anarco-capitalistas, capitalistas: o ismo final é o nonadismo.

Estamos aqui pelo fim da história conhecida: pelo começo da Era Discordiana, pela Iluminação Nonadista. E a iluminação advém do Venerar do Ser, do Ser Feliz em Meio da Bosta. A Bosta está Feita, só nos resta rir e arrumar, ao esperar pela Chuva Divina de Nova Versalhes.

Não apelamos - o nonada impõe. Querem determinismo? Eis que ele surge – só lhes resta determinar suas conseqüências.

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Posted by: timoteopinto | Abril 10, 2008

Ficção

por Reverendo Lugomast

 

O ser humano cria muitas ficções, e começa a crer nelas, como se fosse a realidade.

Exemplos, são o amor, deus, alma…

A ficção é visualizada, criam-se expectativas, e suas subsequentes desilusões.

Quem se casa, por insegurança de ficar sozinho ou perder o companheiro/a, se desilude com a traição e com o abandono.

Até eu mesmo criei uma ficção.

Algumas ficções são tão grandes e sacramentadas que vivem quase que enraizadas no ser.

Religião por exemplo (o combo deus+alma).

Chega a ser presunção, achar que existe uma resposta pra tudo, e até mesmo o sem resposta tem resposta (ELE).

Acho que é o aborígene em cada um, cultuando o deus-sol (o cara aparece todo dia, traz luz e calor, é um deus!).

Aliás, vou começar a cultuar o sol. Ele é brilhante, e só deve deixar de aparecer todo dia daqui alguns bilhões de anos, onde eu não precisarei me importar com frio.

Até a ciência é um tipo de ficção…

Melhor do que a porcaria cheia de superstições, pelo menos.

Mas é uma ficção também… todos os nomes científicos, por exemplo, são apenas os papéis cujos objetos reais atuam.

Buda já falava, que toda a realidade é criação da nossa mente. Somos nós quem chamamos isso aqui de computador, de mesa, de celular…

Tudo não basta de uma convenção. O papel colorido com bicho em extinção que suamos e nos prostituímos pra comprar coisas que não precisamos é outra ficção. (Já pagou suas prestações?)

Ora, quem não gosta de um brinquedo novo?

E isso corrobora para com a minha outra teoria, a de que somos todos crianças. O adulto é só uma criança que acredita na ficção de que existem adultos. Adultos, pessoas mais velhas, dignas de mais respeito (geralmente não).

E o “adulto” é uma criança tão presunçosa, que se acredita um adulto, e acha essa teoria toda um absurdo, afinal: “Ora, eu cresci, não posso mais brincar, tenho que ganhar algo em troca!”.

Mas aí está UM dos erros (sim, um, existem muitos outros, e eu estou até sendo otimista). O adulto também brinca. A diferença é que ele chama os brinquedos de “bens materiais” (não que um não deixe de ser o outro, e vice-versa…)

Carro, celular, computador, são apenas brinquedos caros.

Depois desse papo todo de ficção, uma das vozes na minha cabeça resmunga “Tá mas e daí?”

E daí que se soubermos o que é ficção, podemos ir atrás da realidade.

“E o que é a realidade?”

Boa pergunta.

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Posted by: timoteopinto | Abril 7, 2008

LaranjaPoente, 22 de Confusão de 3174

por Reverendo Cachaça

 

A historia aconteceu ontem e as falas são basicamente estas (creio não sejam nessa ordem, mas foi o máximo que minha memoria afectada conseguiu gravar)

Acordo dia 22 de Confusão do Meu Calendário (correspondente à 22 de Discórdia do Calendário Discordiano)
Abro os olhos o mais forte que consigo. Me estico. Penso. Falo sozinho:
-Hoje, sábado, aula… porracaralho.
Não! Grita minha pineal.
- Hoje, sair para vários lugares com muitos amigos.
Bem lembrado.

Marcamos com umas 5 pessoas para se encontrar na Lapa e ver o que fazer, onde ir, o que usar.
Uma hora e meia de esperas alcoólico-malabarizadas e vamos todos prum encontro alternativo na 5a da Boa Vista.

Sexo, Drogas e Rock ‘n’ roll.

Já estava anoitecendo e nosso fogo esfriando,
quando um coroa muito doido, que antes bebia com uns estranhos, aparece falando coisas zensentido para nós.
Mas nem quero dar muita atenção…
Não!
Escuto claramente ele dizendo que não é daqui,
disse ser do planeta Éris.
-Ah não! Eu é que sou de lá! grito para o homem.
Ele olha bem para mim e diz:
-amor, paz, guerra e ódio; viva e deixe viver;
Intrigado, respondo achando que ele sabe do que sei:
-Ganso, Éris, Caos, Arroz e Chuva!
Ele se desvia de meu fnord e continua a caosofar messianicamente.
Deixa para lá,
ele acabou indo embora mesmo.

Fui dar um rolê com uma amiga,
andamos perto de lagos,
conversamos,
altistamos,
paramos perto de uns gansos disfarçados de patos
conto a identidade secreta deles para ela,
eles fogem desesperadamente enquanto ela ri.
Sentamos,
brincamos um pouco de Afunda!.
Deitamos,
olho bem nos olhos dela
-Não Não. ela diz
Eu rio.
Continuamos lá por uma quantidade inquantificável de tempo…

Fantasia de pato, joelho ralado, céu cinza, cores mortas, cores mortas-vivas, cheiros, cara, coroa doido, hodge-podge, docepicantebumespinholaranja, Mu.

-Vamos?
-Vamos.
Pego minhas coisas, me despeço dos que ficam.
Na fila do metrô, quem eu encontro?!
O coroa-doido-maconhado!
Ele diz que o roubaram e pede preu inteirar a passagem dele.
-Faltam 15 centavos, claro!
Compro 3 bilhetes (eu, ela e ele) quando estamos para entrar no vagão
ele me agradece,
aperta minha mão e correspondo com firmeza (não é força, é firmeza, foi um aperto de mão sincero).

O mundo muda.

Assim que entramos ele olha profundamente nos meus olhos e diz:
-Você apertou minha mão como não faziam a muito tempo.
Por que você fez isso?
-Por que não? respondo com seriedade.
-Era tudo o que eu precisava..
Preste atenção no que lhe digo,
você… você é um ser especial!
Você deu tudo o que eu precisava sem pensar duas vezes. Por isto, lhe sou grato.
Lhe reverencio com a cabeça.

[Deste momento em diante não recordo mais da lógica da conversa...]

-Já me roubaram três vezes … ia matar os filhas da puta … Deus me falou para não …
-É, queria ouvir esse seu Deus, quero conversar com ele um dia.
-Já estudei t e o l o g i a (ele falava com dificuldade). Já fui hare krishina, budista e outras coisas que você não conhece
“esse tal de Deus” você disse… falas como ateu.
-Não sou ateu, sou um dadarkoindividuparrachidiscordjzen, traduzindo, minhas crenças são como uma colcha de retalhos.
-Como?
-Acredito em um deus como você, mas ele é ela e seu nome é Éris. Creio sabendo que não é verdade,
estou convicto em “abolir qualquer convicção que dure mais que um estado de espírito”. 

Ele estava suado e beeem alterado por substâncias que não saberia diz,
eu estava sujo de lama e alterado também.
Sobre ela eu não sei dizer, nunca entendi muito bem as mulheres..
Ficamos a viagem inteira conversando, TODOS olhavam para nós dois enquanto minha amiga fitava o vazio.
mas naqueles segundos,
alguém foi iluminado.

Posted by: duubhglas | Março 19, 2008

Antes de Tróia: armando a situação

Antes de tróia: armando a situação
Por Lila C.

Zeus o impetuoZo – GERAL ME OBEDECEM! diz:
ae meus filhos blz tenho um comunicado pra fz pra rapaziada

Hera – acima d td espoZa diz:
oi amor vem logo pra casa rs

Atena – cai dentro mané diz:
Paizão =** te amo eterna

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Papai q saudades fale??

Zeus o impetuoZo – GERAL ME OBEDECEM! diz:
seginte vo rola uma festa sinistra + eh meio prive qeuro cazar o peleu com a tetis há força pq to asçando q vai rolar um adulterio ce ela fika sozinha + tempo saco entao eh um casamnento soh pra galere do olimpo os bonzão nao qero q chame outra pessoas e digo mas ERIS TAH D FORA VLW

Hera – acima d td espoZa diz:
mais a tetis coitada amro acho q vai dar confusao

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Ih pai foi mal eu tinha acabado de chama a eris pro chat

Éris foi adicionado à conversa.

Éris –><– Onde quÉRIS revolta, sou coqueiro diz:
falae galere qual a boa

Atena – cai dentro mané diz:
Paizao asco q vai ce massa fz uma festiha de casamento to dentro vou chamar alto gatinhos

Éris –><– Onde quÉRIS revolta, sou coqueiro diz:
Opa kem vai casa ai

Zeus o impetuoZo – GERAL ME OBEDECEM! diz:
Ningem eris nem era pra vc ta aki ok

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Eris do q q vc tah falano

Éris –><– Onde quÉRIS revolta, sou coqueiro diz:
Pode para com o papiho Afrodite jah me liguei jah 6 vao da uma festa e agora eu fiquei sabedno rs vcs nem tem como nega

Hera – acima d td espoZa diz:
Eh isos msm criança peleu e tetis tão juntano os trapiho agente vai liberar o hidromel pra galere mais vc num tah convidada

Éris –><– Onde quÉRIS revolta, sou coqueiro diz:
Não?? Blz mais vcs vão t q mim engoli lembresse disso

Éris –><– Onde quÉRIS revolta, sou coqueiro sai da conversa.

 

Zeus o impetuoZo – GERAL ME OBEDECEM! diz:
Pronto Atenas vc e sua língua souta putamerda agora ela jah sabe vai fz o maior fuzuê aposto q vai aparesse na festa triloca de pó jogano hypnol nas birita e tirano a roupa encima da mesa aposto eu conehso eris

Hera – acima d td espoZa diz:
Lige nao amor eris eh fogo de palha soh fala + nao faz deicha ela q ela esquese ok

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Papai c se quizer eu vo la e falo com ela ela me escuta derrepente ce comporta q q 6 ächão?

Zeus o impetuoZo – GERAL ME OBEDECEM! diz:
Merda qeuro soh ver mais tah tranks vai la afrô fala com ela q eu preciso liga pro buffet e e resolve ai essa estória das melancia com qeuijo feta bjks ai pra minhas garotas hera eu vo chega em casa la pelas 22 ok as 23 comeca a festa

Hera – acima d td espoZa diz:
Tah bom amor t espero bjs

Atena – cai dentro mané diz:
Po foi mau pai nem pensei mais agente vai resolve isos fike tranks bejao

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Vo chama ela d volta agora bjs pai

Zeus o impetuoZo – GERAL ME OBEDECEM! sai da conversa.

Éris foi adicionado à conversa.

 

Éris –><– Onde quÉRIS o sim e o não, talvez diz:
Me chamarão d novo?

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Eh isos ai eris qeuro fla com vc qeuria pedi pra vc relacha não fike brava com papai certo

Hera – acima d td espoZa diz:
ele eh mto teimozo menina e vc tah com o filme keimado tah ligada

Atena – cai dentro mané diz:
E eu vou te comer na porrada ce se não se comporta sua escrota

Éris –><– Onde quÉRIS o sim e o não, talvez diz:
Meu Zeus rs q exajero seguinte meninas não qeuro brigar??? Ce aceitei vim aqiu foi pra dizer q eu nem quero msm ir na festa nao vou com a cara da tetis e mais eu tenho um prezente pra manda pra vcs segure ai

Éris –><– Onde quÉRIS o sim e o não, talvez envia:
kallisti.jpg

Aceitar(Alt+C) Salvar como…(Alt+S) Recusar(Alt+Z)

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
Eris q lindo adorei a homenajem brigada nao sabia q vc era tao delicada atencioza??

Hera – acima d td espoZa diz:
Ta louca Afrodite ela mandou pra mim ok

Atena – cai dentro mané diz:
Não fode mãe tah escrito ali pra + bela tah na cara q a maça dorada eh minha!!

Hera – acima d td espoZa diz:
Então eris vc fale d qeum eh a maca

Afrodite – amor eh fogo q arde 100 c ve diz:
eh minha nao eh

Éris –><– Onde quÉRIS o sim e o não, talvez envia:
UAHUHAUHUAUHAUHAUHAUAHAUHAUAHUHAUAHUAH!!!!1
SINTÃO O PESO DA MAO DA DEUSA RS FUI DISCUTÃO AI

Éris –><– Onde quÉRIS o sim e o não, talvez sai da conversa.

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Posted by: timoteopinto | Março 13, 2008

Sobre Lokismo

por M.A.R. Tio e Papa Duubhglas Juarezzz

O Lokismo é um braço do Discordianismo… Esse braço Éris arrancou de Shiva, que tinha braço sobrando. 

Loki é um Deus que ficou muito tempo sem função, sem ter o que fazer. Séculos e mais séculos. Éris, que não é boba (mas as vezes se finge só pra zoar), se lembrou de Loki e o recrutou (de alguma maneira que eu ainda não sei) para a operação da expansão do fnord. Loki não tinha como ficar maaais feliz.

Talvez ele nem tenha ficado tanto tempo parado não… Éris domina o tempo-espaço, ela pode ter trazido ele direto da sua aposentadoria forçada (descrença de quem cria) pro presente ou pra um passado próximo para um treinamento (alguns eventos importantes non-sense da humanidade podem ser frutos desse treinamento). Mas hoje em dia ele já foi “efetivado”.

Acredita-se que Loki, antes de reassumir seu papel de deus das travessuras, confusões e brincadeiras, tentou ser Deus de várias outras coisas. Tentou ser o deus das tesouras sem ponta, deus do feriado na quarta-feira, deus dos palíndromos, deus da tlipsosis (uma parafilia que consiste na excitação em beliscar outra pessoa), mas ele ficou um tempão mesmo sendo deus das palavras ao contrário. Ou, como ele gostava de dizer “Oirártnoc oa sarvalap sad sued”. Tudo que ele via escrito ele invertia. Tudo que alguém falava ele repetia ao contrário. E isso virou um cacuete. Ele não se sentiu incomodado, mas desistiu quando parou de pegar mulher por causa disso. De vez em quando ele ainda repete o vício. Ele estava no fundo do poço e virou funcionário público. Dizem que foi por volta dessa época que Éris recrutou Loki. Dizem.

Cooonta uma lenda que ele pregou uma peça em Onan. Toda vez que Onan se olha no espelho, ele reduz seu tamanho pra dimensões microscópicas por alguns segundos, por que Onan ao contrário é “Nano”, e Loki se amarra em trocadilhos. Cooonta uma lenda. 

Sem sombra de dúvida, se churros com doce de leite tem um deus, esse deus é Loki. Pode ser que Éris tenha achado Loki perdido quando ela foi comer seu cachorro-quente… Do lado tinha uma barraquinha de churros com doce de leite. 

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Posted by: Rev. Peterson Cekemp | Março 13, 2008

Raul e sua miserável torta

por Rev. Peterson Cekemp

Conto. Not a copy, but a tribute.

Era uma vez alguém chamado Raul. Não importa quem Raul era; nem mesmo se ainda é. Não importa se é criança, adolescente, adulto, idoso, homem, mulher (o nome pode ser pra esconder a identidade…), branco, preto, alto, baixo, gordo, magro, etc. Importa é que certa vez ofereceram a Raul uma grande e deliciosa torta.

Na verdade, não ofereceram. Raul saiu de casa um belo dia e então viu a torta ali, no chão, à frente de sua porta. Ele então examinou a torta por alguns instantes e pensou “Bem, vou comê-la!”.

Aí ele viu que na embalagem de alumínio - estilo ‘marmita’ - que envolvia por baixo a torta, havia uma rachadura. Ele então olhou desconfiado e pensou “iiiiii…”. Apesar do “pé atrás”, ele continuou.

Então ele mordeu um pedaço. Estava fria. “Argh, que droga!”, pensou, “Pelo menos eu posso esquentar…”, mas ele, apesar de começar a frase com ar de ‘Eureka’ a terminou com desânimo. Ficou com preguiça de esquentar a torta. Sim, talvez ele só precisasse ligar o microondas, mas mesmo assim ele teve preguiça.

Depois, uma mulher usando salto alto, aparentando ser de meia-idade, entrou com altivez no pequeno jardim de sua casa, onde ele permanecia de pé, tentando comer a torta.

- Você não vai me dar um pedaço?? - perguntou ela, em tom de “é ÓBVIO que você DEVERIA fazer isso, não?”

Raul olhou para os lados, devagar, tentando compreender a situação. Perguntou, o mais educadamente que pôde:

- É comigo?

- Eu não gosto de ironias, palhaço - disse ela, séria, ousada. - Você me deve um pedaço. E grande, de preferência.

- Ei, ei, EI! Espera aí, quê isso? - Disse ele, quando ela já aproximava sua mão em direção à torta.

- Como assim, quê isso? EU fiz essa torta pra você!

- Bom, Obrigado! - Respondeu ele, estupefato com a situação ridícula.

- Obrigado? HA!

- É, não tá bom não?

- Mas eu TROUXE essa torta pra cá!

- E daí? Problema é seu, ué! Não pedi torta nenhuma! - respondeu ele, conclusivamente.

- Mas você gostou, não é, seu ingrato?

- Bom, é… Sim, bem, eu gostei, eu acho - disse ele, confuso.

- Então. Tudo bem, eu posso não ter feito, mas eu trouxe até aqui. Não vai… Me dar um… Um pedaço? - perguntou ela, com ar hesitante nas últimas palavras.

- Não, é claro que não. Obrigado pela torta, mas não, não vou te dar nenhum pedaço. - Disse ele, enfim, e a mulher saiu de sua propriedade.

Então, antes que ele pudesse assimilar tudo o que aconteceu, outra mulher entrou em sua casa, dizendo, de modo ainda mais ignorante (no sentido de “bruto”, sabe?), que Raul não tinha o direito de comer aquela torta.

- Mas por que DIABOS eu não posso comer essa torta?

- Sabe quantas pessoas passam fome no mundo todos os dias? - perguntou ela, com um rosto da mais fina indignação.

- E daí? - Raul se perguntou, usando as mãos para sustentar sua indiferença - Tudo bem, eu posso ajudá-las, mas não é passando fome que eu vou conseguir fazer isso!

- Você é um grande idiota mesmo. Não entende nada! De NADA! - Disse ela, dando pequenas voltas e fazendo um trajeto irregular pelo jardim. Raul desejou que ela não pisasse tanto na grama - Você não percebe, é injusto, é injusto que você ou qualquer outra pessoa coma esta torta!

Raul olhou para a torta. Sua torta, fria, em uma embalagem rachada, mas ali estava ela. Um presente esquisito, pelo qual ele não pediu. Estava relativamente satisfeito com o fato de que ele não tinha que sacrificar sua torta em prol das “tantas pessoas” que passavam fome no mundo. Definitivamente não. Mas mesmo assim, aquela mulher havia conseguido sabotar sua pequena felicidade de comer tortas. De alguma forma aquela torta não parecia mais a mesma. Tinha perdido um pouco o valor.

De repente, um homem veio correndo dos cantos mais longínquos possíveis desse cenário hipotético, parecendo muito cansado, parou dentro do terreno de Raul e falou, exasperado, com as mãos nas coxas, olhando para o chão, muito ofegante…

- Se… Você… Comer… Essa… Essa torta… O recheio da minha torta… Vai mudar… - falou ele. Raul não tinha percebido, mas ele trazia uma pequena torta pendurada no pescoço, como um crachá. Estava dentro de um recipiente bem fechado, pra que não caísse.

A mulher lançou um olhar de desafio para Raul.

- Agora você vai ter que reconhecer, você não pode fazer isso!

- Hã?

- Você não pode comer essa torta!

- Por que não?

- Porque o recheio dele vai mudar, você não ouviu? Largue essa torta agora mesmo! - Disse ela, autoritária ao extremo.

- NÃO! - Berrou Raul, irritado - Quer parar com isso? Porra, foda-se, me deixe comer a minha torta em paz! - Raul entrou em casa. Parou no corredor, e resolveu voltar, ainda achando que talvez não tivesse dito tudo o que tinha pra dizer - Cacete… Será possível que eu não tenho o direito de comer a minha torta em paz?

Durante algum tempo, silêncio. A mulher parecia irredutível; o homem, cansado.

- Por favor… Senhor… Por favor… - Pediu uma última vez o homem.

Raul reconsiderou e segurou a torta com a mão, pra baixo, um pouco desanimado.

- Tudo bem. Mas eu quero deixar claro que foi porque eu quis! Merda! - reclamou ele, baixinho, irritado com toda a história maluca.

Depois de alguns minutos olhando em silêncio para os estranhos, ele ficou impaciente de ficar ali, em seu jardim, rodando pra lá e pra cá, sem saber o que fazer ou dizer.

- Bem, olha, um dia eu vou ter que comer essa torta ou, sei lá, fazer alguma coisa com ela! - Exclamou Raul.

Então outro homem, muito similar ao primeiro desconhecido que apareceu em sua casa, veio correndo de um outro lugar e disse, dessa vez, com uma voz segura e rápida:

- Por favor, senhor, não faça isso. Meu recheio mudará consideravelmente pra pior se você comer essa torta. Qualquer pedaço que seja.

Raul olhou estranhamente para a mulher, que parecia estar se divertindo muito com aquilo tudo - Consideravelmente? - perguntou o aturdido dono da torta problemática.

- Sim.

- Como? Em que sentido?

- Eu não gosto de ervilhas. Além do mais, não gosto de comer com garfos. - disse o homem de voz grossa.

Raul riu dos três estranhos ali, uma risada louca, inconseqüente, um pouco desiludida, e desistindo de considerar mais coisa absurda alguma, deu uma mordida na torta.

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOO!!! - Exclamaram, berraram, gritaram os três estranhos ali no quintal de Raul.

Raul riu ainda mais de si mesmo, dos outros, de tudo. Riu de seu quintal, riu da rua, riu dos visitantes, riu até de sua própria casa, as janelas, a porta, tudo, riu de tudo. Achava aquela cena apocalíptica uma loucura maravilhosa, uma verdadeira libertação. Enquanto o frango desfiado fazia-se sentir nos dentes dele, os homens o chamavam de “mal”, “perverso”, “terrível”, “lobo”, “demônio”, etc. A mulher chorava histericamente numa posicão estranha no chão.

Quando terminou de engolir o pedaço que havia pego, Raul olhou ao seu redor pra ver a destruição que havia causado. Todos estavam ali ainda.

Raul então, um pouco mais tranquilo quanto aos visitantes malucos, resolveu comer mais um pedaço da torta.

Mas havia algo de errado. A torta não era de carne com ovo.

Quando ele virou o rosto procurando por algo ou alguém que pudesse explicar o que estivesse acontecendo, viu um homem passando no meio da rua. Ele estava de olhos fechados, mastigando tranquilamente um pedaço de torta.

“Droga” pensou Raul. Ele compreendeu então o que aconteceu.

Mas antes que pudesse pensar a respeito, o homem de voz forte que tinha chegado depois já estava na sua frente. Enquanto Raul segurava a torta com a mão direita, ela voltada para cima, o homem tinha se aproveitado de sua distração, talvez, pra começar a colocar pimenta na torta.

- PUTA QUE O PARIU, O QUE É QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, CARALHO? - Perguntou, surpreendido, Raul.

- VAI SE FUDEEEEER, AGORA VOCÊ VAI TER O QUE MERECE!

O homem continuava calmamente colocando várias e várias pimentas, das mais fortes possíveis, em cima e dentro da Torta. Ia furando-a pra fazer com que o líquido da conserva de pimenta penetrasse em todo o alimento.

Depois que ele terminou, saiu rindo, e então, depois de se distanciar um pouco, parou, apoiado no muro do jardim de Raul, com um rosto satisfeito e suado. Ele riu então mais uma vez e respirou profundamente.

- Desculpe, Raul, mas foi necessário. - Comentou, satisfeita, a mulher.

- Droga. Eu queria ter feito isso - lamentou-se o primeiro homem.

E Raul? Raul continuava ali, com a torta sabotada na mão. Depois as pessoas saíram dali, aos poucos. E ele voltou pra dentro de casa. Passou todo o tempo ali, parado, em seu jardim, sentado no chão, olhando para a sua torta. Fria, com uma embalagem rachada, estragada pela pimenta, condimento que, em excesso, tornava um alimento intragável - mas além disso Raul não gostava muito de ovo (o novo recheio de sua torta era carne e ovo). Ele teve pena de sua torta, tão frágil, tão destruída, tão judiada. Pensou em todas as suas imperfeições e sentiu pena dela. Não quis mais encostar nela, em nenhum pedacinho sequer. Talvez ele pudesse ter recuperado umas partes. Talvez ele pudesse ter convivido com a pimenta. Ou não. Mas ele nem tentou.

Ele entrou em casa. Nunca mais foi visto.

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Posted by: timoteopinto | Março 10, 2008

Crianças Precisam de Maçãs

Por Reverenda Kathy

- Por que você acha que há tantas regras? - comentou, ignorando o que Aleph disse antes.    

 - Regras são necessárias para termos uma vida perfeita, sermos felizes e conviver em sociedade.     

 Aleph sentiu um olhar de repressão vindo em sua direção.    

 - Tem certeza? É o que eles dizem para você. Ou por acaso a choradeira de antes era um sinônimo de sua alegria?   

   Não havia o que dizer, simplesmente abaixou a cabeça, pensativo.  

 - Não há limites para o que podemos fazer, a única coisa que pode te impedir são as regras que você cria.   

  - Eu não crio regras, não tenho tal capacidade.  

 - Exatamente por isso que você é א! Tem um futuro formidável pela frente, eu posso ver.   

- Chega de brincar comigo, nem futuro tenho - deixou escapar um suspiro - E por que está me contando essas coisas? 

  - Simpatizei contigo, sei que ainda há esperança. Você é o Primeiro, irá começar uma grande cadeia de eventos.   

  - Não quero começar nada.    

 - Não tem porque negar, você já se decidiu. Posso ver em seus olhos.   

    A garota levantou-se e deu uma volta olhando para cima, procurando algo nas árvores. Pegou uma maçã e a ofereceu para Aleph. Este negou, afirmando que era contra as regras, não é permitido pegar frutas das árvores, ainda mais uma maçã!   

  - Pelo jeito você não aprendeu nada - deu uma mordida na fruta - Preste atenção no que irei dizer a seguir. Se uma criança dos seus inomináveis pegar uma maçã, o que acontecerá com ela?    

  - Uma criança jamais pegaria uma maçã, seus pais não deixariam.  

  - Não! Resposta errada! Se os pais não estivessem presentes e ninguém jamais tenha dito que é proibido pegar maçãs? 

   - Diriam para a criança que é proibido pegar maçãs, ela não seria punida. 

   - Estamos quase lá. Agora me diga, por que a criança pegou a maçã?  

  - Porque ela desconhecia a regra.  

 - Resposta correta! Ganhou uma maçã - jogou a fruta no colo de Aleph.- Percebeu agora? A criança só o fez porque desconhecia suas regras inúteis! Aleph, vire uma criança.   

 - Para pegar maçãs? - respondeu ironicamente.

Posted by: timoteopinto | Março 6, 2008

FAQ dos sentimentos

Por Reverendo Peterson Cekemp   

Como emoções se transformam em sentimentos?

Por seleção natural. Eles evoluem quando sobrevivem.

Há outro caminho?

Sim. Engenharia genética da brava. O negócio fica tão artifical que parece uma ilusão. Muitas vezes o experimento morre cedo; se morre tarde, vai se arrastanto dolorosamente pelos seus últimos dias.

Eu tenho um sentimento, mas não sei bem o que ele é… Como dá pra saber?

Não dá. Por via das dúvidas, não dê.

Oh, não dá mesmo?

Não. Não é possível estar certo nem mesmo sobre sua existência <do sentimento>

Ele é controlável?

Sempre é.

Mas e se não for?

É porque você não quer que seja.

Verdade?

Claro.

Mesmo?

Pode confiar, pô.

Emoções e sentimentos devem ser a meta da existência?

Humm… Não. A palavra “devem” não soa bem.

Mas nesse caso a sua negativa soa como um “não devem”.

Que Seja!

Como é possivel provar um sentimento ou emoção?

Não é possível, eu já disse. Não há prova conclusiva.

Mas então como eu posso saber o que os outros sentem?

Não pode. Aí é que está. Hipótese: a vida é uma experiência “de si” e “para si”, usando esses termos idiotas que vão te dar uma idéia pomposa do que eu quero dizer. Você quer uma prova de amor? Esqueça. O que você pode fazer é provar o seu próprio amor - para si mesmo - fazendo-o resistir a intempéries, dificuldades, etc. Isso não significa falta de expressão, você ainda vai agir influenciado pelas emoções e sentimentos de qualquer jeito. Mas que não existe prova conclusiva, ah, isso não existe. 

Posted by: timoteopinto | Março 3, 2008

O Círculo Quadrado

por Reverendo Ibrahim Cesar 

Da Comunicação oficial entre REV. IBRAHIM CESAR (1986-????) e TIMÓTEO PINTO (????-NUNCA): “Esse cara não pára de me mandar textos e mais textos discordianos. É muito perigoso como o nobre colega sabe ficar escrevendo tantas verdades. Quando lhe perguntei de onde os tirava temi na hora que ele me respondesse com um palavrão. Sua resposta no entanto não foi nem um pouco esclarecedora. Tudo o que o maldito bastardo me disse foi: ‘Irrelevante’. Segue o primeiro deles para apreciação”.

O CÍRCULO QUADRADO, UMA FÁBULA DISCORDIANA, divinamente inspirado por Éris a Rev. Voynich ATCHUNG! Esta história que vocês irão ter o (des) prazer de acompanhar pode ser verdade. Pode ser mentira. Pode ser verdade ou mentira. Verdade e mentira. Ou pode ainda não ser nenhum dos dois. Interpretações tanto literais como metafóricas são encorajadas desde que não use isso como desculpa para queimar nenhuma mulher que deu bola para você ou explodir gordinhos em torres. Obrigado.Conta-se que há muito tempo atrás quando Éris conheceu YHVH (você não pode dizer isso), a mesma não ficou nenhum pouco impressionada. E garotas como Éris são do tipo que qualquer sujeito faria de tudo para impressionar.

“Eu sou o Alfa e o Ômega, sabe?” YHVH disse puxando papo. “Todo-poderoso. Não há coisa nenhuma que eu não possa fazer sabe? ”

“Oh. Sério?” Éris respondeu bocejando de tédio, mais preocupada em observar Teseu se abaixando para levantar algo. Esses caras gregos usavam aquelas togas e se quer saber, sempre que se baixavam para pegar alguma coisa era simplesmente uma indecência. E sujeitos como Teseu estavam sempre se abaixando. Alguns historiadores como Rutherford e Newton, inclusive sustentam a tese de que o clássico “derrubar o lenço” das mulheres nasceu ali na Grécia, para que essas indecências acontecessem. “Eu sempre gostei mais de Pi. Ou Kappa. Alfa é muito nariz empinado, sabe? Por ser o primeiro e tal. E o Ômega, a não ser que esteja em uma trindade não é nenhum pouco legal”.

“Trindade?”, YHVH pensou. “Mas vamos, senhorita…Diga-me algo para fazer”.

Éris no mesmo momento teve certeza de que ele a estava paquerando. Olhou ele dos pés à cabeça e teve a idéia de criar mais discórdia. Esse era o emprego dela afinal.

“Ok”, ela disse cruzando os braços. “Diga para aquele cara ali, olhe…”

“Jó?”, YHVH perguntou espantado. “Acho melhor não, sabe? Eu já (censurado) a vida dele”.

“E que tal aquele?”

“Abraão? Tudo bem. O que eu faço?”.

“Mande…Ele matar o filho dele”.

Nessa época os deuses ainda sabiam o nome e as fofocas de cada pessoa no mundo. Hoje em dia divindades como YHVH possui assessores para lidar com isso e não se dá ao trabalho de nem saber o nome do papa. YHVH chamou um dos seus moleques de recado (formalmente conhecidos hoje como anjos, mas que na época não eram nenhum pouco respeitados. Para se ter uma idéia, no panteão egípcio, YHVH tinha a mesma fama de Michael Jackson por causa de seus “garotos” de quem dizia “gostar de dividir minha cama com eles”).

“Oh. Não. Não mate o pobre coitado!”, Éris se deu conta.

“O quê?”, YHVH perguntou confuso.

“Você não pode fazer tudo, Gama?”, ela o desafiou.

“É Alfa. E Ômega. Posso sim”, ele disse antes de assobiar para um de seus garotos que olhou para ela e mostrou a língua antes de evitar o pior.

“Viu?”, YHVH perguntou enquanto olhava para o garoto interrompendo Abraão que ficou realmente muito bravo quando o sujeito com asas de galinhas de surgiu e disse “Punk’d” ou algo assim.

“Não”, Éris disse. “Você não pode”.

“Claro que eu posso”.

“Não. Não pode”.

“Eu aposto que posso, senhorita! Eu aposto por De…Pela vida do meu único filho!”

“Ok”, Éris disse. “Faça-me um círculo quadrado”.

“Censurado”, YHVH pensou.

Éris olhou para ele com pena e o deixou lá. Após esse pé na bunda, YHVH saiu em cólera (alguns dizem chorando) e saiu contando para todo mundo que Eva havia comido a bendita maçã quando na verdade ela era apenas a mulher do jardineiro. Eles eram naturalistas. Séculos mais tarde YHVH pagaria a sua aposta.

O resto é história.

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Posted by: Rev. Peterson Cekemp | Fevereiro 28, 2008

O que o capitalismo vende?

O capitalismo vende segurança: como diz meu professor de geografia, a mídia sempre quer ver todo mundo com a “teoria do cagaço” debaixo do braço. A TV cospe sangue em você; faz com que você ache que qualquer pessoa minimamente mal vestida está olhando atravessado pra você, e que a cada esquina um seqüestrador está escolhendo uma vítima (e que vai ser você, é claro). Ela quer fazer você ficar tão angustiado que você vai querer comprar tudo que eles vendam como segurança, além de consumir mais comida e banalidades por causa da sua angústia. Afinal, pra onde as mulheres vão quando querem se distrair? SHOPPING, não é?

O capitalismo vende personalidade: As pessoas querem viver numa zona de segurança, algum lugar abstrato confortável, que está entre a normalidade e a personalidade exclusiva. Na verdade há duas motivações para as pessoas quererem se sentir “diferentes”. A primeira é a agonia da normalidade, e das duas é a “Menos ruim”. É quando alguém percebe que simplesmente se parece demais com “todo mundo” e com “estereótipos”, então tenta mudar e ganhar alguma coisa como uma “personalidade própria”. A outra motivação é que a sociedade em geral faz você acreditar que é normal ser diferente (em questão de personalidade), de forma que se você não é minimamente diferente, você não é normal - e aí algumas pessoas iriam à loucura se não se encaixassem nessa “normalidade”. A questão é que, por qualquer motivo que seja, você acredita que precisa ser diferente a qualquer custo, e antes esse fosse o problema. O problema é que é uma crença de superficialidade; as pessoas pra serem diferentes fazem algo no cabelo, compram roupas “diferentes” ou “que dizem mais” sobre elas, aprendem algumas expressões de determinado grupo social, e compram variados produtos que custam mais caro por causa do fator “exclusividade”. Um iPod já é caro, mas uma versão limitada, sei lá, autografada pelo U2 (uma vez já existiu uma assim) custa mais caro. E quem “se identifica” vai lá e compra. O capitalismo vende personalidade: pras pessoas, ser diferente é comprar a diferença.

O capitalismo vende utopias: Você acha que a anarquia é utopia? Utopia é achar que felicidade é casar, ter filhos, viver trabalhando que nem um condenado pra sobreviver e sobrar um dinheiro pra no fim da vida ficar sem fazer de nada numa casa de praia. Essa é a imagem ideal de muitas pessoas: quando é perguntado a elas sobre felicidade, ou elas respondem um amor, ou os filhos, ou uma velhice segura. Aqui está um estereótipo: pôr-do-sol. Praia. Crianças brincando em slow motion. Ondas calmas. Um idoso com sandálias chiques, óculos escuros impecáveis, apoiando os braços atrás da cabeça e deitando, curtindo o pôr-do-sol… Parece propaganda do Itaú, certo? Então. Todos os seus sonhos de felicidade são na verdade remédios pros seus medos. Medo e impossibilidade de ficar sozinho, medo instintivo e primitivo de não passar os genes adiante, e medo memético, que vem da insegurança social dos dias de hoje, de sofrer na velhice ou mesmo ficar pobre antes disso, etc. As pessoas não querem mais nada da vida, não ousam ir além, se contentam com o pouco que lhes aplaca as ansiedades - e é pior, pois se contentam em nem mesmo pensar sobre isso. Isso não é vida. Isso não é felicidade. Isso é utopia.

E, é claro, tem alguém lucrando com os casamentos, muita gente lucrando com filhos e com o trabalho, e muita gente lucrando com casas na praia.

E, acima de tudo, o capitalismo vende distração: Se não houvesse nada pra te distratir, mais pessoas pensariam que talvez a mídia manipula demais as informações, que talvez não é preciso muito pra ser diferente, e não é um grande objetivo de vida ser diferente - ou melhor, se encaixar no modelo padrão de “ser diferente” - e mais pessoas avaliaram o que desejam pras suas vidas. E assim as coisas mudariam. Mas como as pessoas não são tão sérias (e ainda bem que não são, sob certo ponto de vista!) elas gostam de uma diversãozinha. O problema é que não sabem usar com moderação. Transformam a religião, o pão e o circo em ópio pras mazelas silenciosas da existência.

E tem muita gente lucrando com isso.

por Rev. Peterson Cekemp

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