Publicado por: timoteopinto | Março 7, 2009

Crítica do Discordianismo Puro

por Ari Almeida

Eu sou chato & Você é chato.

Quem disse isso foi um cara que não é chato. Seth Godin, o marketeiro número um da Internet. Certo, ele estava se referindo principalmente ao gerenciamento de Marcas & Produtos, mas não só. Ele disse: Se você não está discutindo seus produtos, seus serviços, sua causa, seu movimento ou carreira, a razão é que você é um chato. E provavelmente é um chato de propósito. Porque é mais seguro. Seus produtos (ou suas idéias) são chatos porque você faz o que o mercado (ou seus amigos, ou seus leitores, ou até mesmo suas convicções) quer ou espera. Ser notável custa tempo & emprenho, mas o mais importante: ser notável custa a coragem de errar.

Quem mantém um blog deveria saber quando está sendo chato. Eu mantenho (ou mantinha?) e admito que estou sendo um chato. Não 100% do tempo, espero, mas a maioria, com certeza. Se eu fosse realmente notável, o delinquente.blogger seria um dos blogs mais influentes da da blogosfera brasileria e sabemos que não. Bom, sou chato, mas não sou burro.

Mas sou mala. Tenho lá minhas suposições sobre o que é um texto que presta, quem é a aundiência do blog e o que ela espera. Procuro os textos mais impactantes, contanto que eles tenham o mínimo risco de afugentar o leitor fiel. Os posts sobre os assuntos que o máximo de leitores do blog possam se interessar. Aposto no seguro, covardemente.

Reconhecer que se é chato já é um começo, logo, começei. O pior chato é o que não se enxerga. Eu quero mudar o horror! Bora então, senta que lá vem a história.

Era um vez um post no delinquente ponto blogger que continha um capítulo de um livro de C.G. Jung. Como faz anos que bato de frente com Janos Biro sobre questão materialista e principalmente sobre a crítica dele com relação ao simbolismo, mandei o texto por e-mail e propus um debate. Compartilho com vocês aqui a resposta que obtive.

Olá

Quer dizer que você ainda está vivo. Que coisa.

Ari, eu não aprecio as tensões dialéticas, por mais que eu não consiga evitar um debate, não agrada ter que participar de um. De fato, me incomoda. Lembra do senhor Miagui? Ele é um mestre de caratê que odeia lutar. Como eu.

E eu não tenho muito que discutir com Jung. Não sou um iluminado, para mim não me importam as luzes da razão humana. Aqui está um cara dizendo que há uma parte desconhecida da mente, e ao mesmo tempo fala dela como se a conhecesse melhor que ninguém. E se eu não me apego a essa tese, é porque tenho medo do que é novo. Ao contrário, me parece que a síndrome mais marcante da modernidade não é a neofobia, mas a neofilia. A modernidade é uma reação à tradição, e por isso talvez o nosso caro amigo Jung ainda pense que seja uma coisa terrível desconfiar das maravilhas da ciência moderna.

Não estou discordando da sua tese central. O que eu penso é que se há uma mentalidade típica da sociedade tecnocrata, esta inclui como valor central a inexistência de verdades, partindo do pressuposto cartesiano que devemos duvidar de tudo. Eu duvido disso. Eu creio em verdades profundas, transcendentais, bem fundamentadas e consideravelmente estáveis. Se eu não cresse, eu estaria patinando no gelo. Você diz que não há nada pior que uma convicção, mas não coloca isso em dúvida. A falta de orientação pode ser pior.

Janos

O puto deixou o Tiro Na Boca Com Muito Amor & Carinho por último. Um discordiano de presto soltaria uma gargalhada na frase anterior, a das Verdades Profundas e nem repararia na frase final, as gargalhadas impediriam, tal qual um ponto cego. Mas é aí que está o Grande Abacaxi Cósmico que vou propor que descasquemos.

Nós, discordianos, caoístas, leitores de Robert Anton Wilson, Lúcio Manfredi e quejandos, costumanos nos gabar com muita pompa que não temos crenças (toda crença é uma prisão), mas sim, olha que style, meta-crenças. No entanto um questionamento se faz necessário. O que ganhamos com isso? Não somos dogmáticos, logo, estaremos sempre longe de fundamentalismos vãos e da fila para vagas de homens bomba. Certo. Nosso intelecto estará sempre aberto a novos conhecimentos, posto que não descartamos idéias conflitantes. Certo também. Nos divertimos muito com a tosquiçe dos proprietários de convicções, rará, otários, nós somos superiores. Certo?

Certo? Hã? Se eles são uns otários, não seríamos nós um bando de babacas pedantes?

Vou mudar o formato e até mesmo o enfoque da pergunta para tentar deixar mais claro o ponto em que quero chegar e o desafio que quero propôr. A ausência de configurações nos torna pessoas mais Felizes & Realizadas?

Vou ser franco aqui, ficamos posando de Sétimo Circuito enquanto na verdade estamos chafurdando num lamaçal de terceiro circuito. Não basta apenas uma compreensão intelectual do conceito de meta-crença. Assim sendo caímos naquilo que nosso tão estimado Nietzsche, o Bigode, alertava. O conhecimento pelo conhecimento que não leva a nada além do vazio absoluto, o niilismo em sua forma mais perniciosa. Enquanto não realizarmos uma mudança de consciência, não seremos pessoas Felizes & Realizadas & Cools. Uns Coolzões, no máximo.

Mas a premissa inicial era deixar de ser chato, não é mesmo? E tem coisa mais chata do que um reclamão, que reclama, reclama, reclama e não apresenta nenhuma proposta? Pois bem, já cheguei no ponto em que queria chegar, então agora vou propôr o desafio que falei antes.

Uma vez Marcelo Adnet, no seu Quinze Minutos da MTV citou uma anedota antiga em que, discutindo os méritos e deméritos do funk carioca com um conhecido, ouviu essa jóia:

- Pessoas que gostam de funk são mais felizes.

Com essa frase em mente, observe uma micareta. Ou então um pagode em uma laje qualquer. As festas de peão boiadeiro e seus bailões sertanejos. Uma gafieira regada a brega rasgado. Assista um DVD do Tchê Garotos. Mas sempre com a frase do Adnet em mente, apenas trocando o funk pelo rítmo observado. Robert Anton Wilson costumava dizer que era saudável ler artigos com visões políticas e ideológicas diferentes das nossas, beleza, só que considero esse exercício fácil de mais, pois ele lida com o intelecto, sempre mais maleável, ainda mais que temos posse do conhecimento da existência das meta-crenças. Com música a coisa se complica, pois ela lida com as emoções de segundo circuito.

Pois bem, após essa introdução inicial, vamos ao desafio propriamente dito. Escolha seu ritmo, estude-o e baixe os discos mais relevantes e durante um mês escute somente ele. Escute bastante, coloque que em seu mp3 e escute no ônibus, no caminho de casa ao trabalho ou escola, faculdade, o que seja. Decore as letras, em seu quarto tente dançar. Pesquise na net informaçòes sobre os cantores ou bandas. Conheça o assunto em profundidade. Durante um mês, a cada fim de semana, frequente baladas onde tocam esse ritmo.

Esse exercício é interessante porque além de mexer com as emoções de segundo circuito, numa dessas, quem sabe, de repende, vai saber, numa dessas baladas você pode conhecer alguém totalmente fora de suas expectativas, ser surpreendido por essa pessoa e dar uma boa chacoalhada no seu quarto circuito.

Eu por exemplo estou fazendo isso com música sertaneja, para o infortúnio de meus colegas de trabalho. Começei assim, toda a tarde faço meu prézinho de sertanejo no trampo, ouvindo 101.5 Clube FM aqui de Curitiba e vou anotando o nome das duplas e as músicas. Depois baixo os discos, ponho no meu MP3 e vou escutando no caminho de casa enquanto leio meus Nietzsches e Jungs nos buzuns que pego, são três. Vocês não imaginam a experiência sensorial que é ler Aurora ao som de Hugo Pena & Gabriel.

Já sou até fã de alguns, tenho minhas preferências. Guilherme & Santiago, Mateus & Cristiano, César Menotti & Fabiano, Gino & Geno. Claro, não precisa ouvir tudo, afinal, gosto de rock e nem por isso gosto de Snow Patrol ou Death Cab for Cutie. Nem com o caralho, mas nem fodendo vou escutar um disco do Daniel. Quer dizer, fodendo, dependendo da mina, talvez. Mas de livre e espontânea vontade, nem a pau. Chitãozinho & Chororó eu também não tchuns.Mês que vem vou comprar a indumentária pra causar mais nas festas, chapéu, cinto maneiro, botas estailes e um jeans invocado.


Respostas

  1. [...] à primeira pergunta, bem, não há como saber se há vantagem nisso. Como diria Ari, de que adianta ter essa sensação se isso não te deixaria mais feliz? Talvez haja uma [...]

  2. O simples fato de crer em não ter crenças já nos leva pro começo da brincadeira, cara (já que se trata de uma crença também).
    Mas eu acho que essa é a beleza do mundo, sabe? Estar sempre caindo numa nova armadilha, sempre tendo que buscar um novo meio de estar onde queremos ir, e não aonde vamos.


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