Raul e sua miserável torta

por Rev. Peterson Cekemp

Conto. Not a copy, but a tribute.

Era uma vez alguém chamado Raul. Não importa quem Raul era; nem mesmo se ainda é. Não importa se é criança, adolescente, adulto, idoso, homem, mulher (o nome pode ser pra esconder a identidade…), branco, preto, alto, baixo, gordo, magro, etc. Importa é que certa vez ofereceram a Raul uma grande e deliciosa torta.

Na verdade, não ofereceram. Raul saiu de casa um belo dia e então viu a torta ali, no chão, à frente de sua porta. Ele então examinou a torta por alguns instantes e pensou “Bem, vou comê-la!”.

Aí ele viu que na embalagem de alumínio – estilo ‘marmita’ – que envolvia por baixo a torta, havia uma rachadura. Ele então olhou desconfiado e pensou “iiiiii…”. Apesar do “pé atrás”, ele continuou.

Então ele mordeu um pedaço. Estava fria. “Argh, que droga!”, pensou, “Pelo menos eu posso esquentar…”, mas ele, apesar de começar a frase com ar de ‘Eureka’ a terminou com desânimo. Ficou com preguiça de esquentar a torta. Sim, talvez ele só precisasse ligar o microondas, mas mesmo assim ele teve preguiça.

Depois, uma mulher usando salto alto, aparentando ser de meia-idade, entrou com altivez no pequeno jardim de sua casa, onde ele permanecia de pé, tentando comer a torta.

– Você não vai me dar um pedaço?? – perguntou ela, em tom de “é ÓBVIO que você DEVERIA fazer isso, não?”

Raul olhou para os lados, devagar, tentando compreender a situação. Perguntou, o mais educadamente que pôde:

– É comigo?

– Eu não gosto de ironias, palhaço – disse ela, séria, ousada. – Você me deve um pedaço. E grande, de preferência.

– Ei, ei, EI! Espera aí, quê isso? – Disse ele, quando ela já aproximava sua mão em direção à torta.

– Como assim, quê isso? EU fiz essa torta pra você!

Bom, Obrigado! – Respondeu ele, estupefato com a situação ridícula.

Obrigado? HA!

– É, não tá bom não?

– Mas eu TROUXE essa torta pra cá!

– E daí? Problema é seu, ué! Não pedi torta nenhuma! – respondeu ele, conclusivamente.

– Mas você gostou, não é, seu ingrato?

– Bom, é… Sim, bem, eu gostei, eu acho – disse ele, confuso.

– Então. Tudo bem, eu posso não ter feito, mas eu trouxe até aqui. Não vai… Me dar um… Um pedaço? – perguntou ela, com ar hesitante nas últimas palavras.

– Não, é claro que não. Obrigado pela torta, mas não, não vou te dar nenhum pedaço. – Disse ele, enfim, e a mulher saiu de sua propriedade.

Então, antes que ele pudesse assimilar tudo o que aconteceu, outra mulher entrou em sua casa, dizendo, de modo ainda mais ignorante (no sentido de “bruto”, sabe?), que Raul não tinha o direito de comer aquela torta.

– Mas por que DIABOS eu não posso comer essa torta?

– Sabe quantas pessoas passam fome no mundo todos os dias? – perguntou ela, com um rosto da mais fina indignação.

– E daí? – Raul se perguntou, usando as mãos para sustentar sua indiferença – Tudo bem, eu posso ajudá-las, mas não é passando fome que eu vou conseguir fazer isso!

– Você é um grande idiota mesmo. Não entende nada! De NADA! – Disse ela, dando pequenas voltas e fazendo um trajeto irregular pelo jardim. Raul desejou que ela não pisasse tanto na grama – Você não percebe, é injusto, é injusto que você ou qualquer outra pessoa coma esta torta!

Raul olhou para a torta. Sua torta, fria, em uma embalagem rachada, mas ali estava ela. Um presente esquisito, pelo qual ele não pediu. Estava relativamente satisfeito com o fato de que ele não tinha que sacrificar sua torta em prol das “tantas pessoas” que passavam fome no mundo. Definitivamente não. Mas mesmo assim, aquela mulher havia conseguido sabotar sua pequena felicidade de comer tortas. De alguma forma aquela torta não parecia mais a mesma. Tinha perdido um pouco o valor.

De repente, um homem veio correndo dos cantos mais longínquos possíveis desse cenário hipotético, parecendo muito cansado, parou dentro do terreno de Raul e falou, exasperado, com as mãos nas coxas, olhando para o chão, muito ofegante…

– Se… Você… Comer… Essa… Essa torta… O recheio da minha torta… Vai mudar… – falou ele. Raul não tinha percebido, mas ele trazia uma pequena torta pendurada no pescoço, como um crachá. Estava dentro de um recipiente bem fechado, pra que não caísse.

A mulher lançou um olhar de desafio para Raul.

– Agora você vai ter que reconhecer, você não pode fazer isso!

– Hã?

– Você não pode comer essa torta!

– Por que não?

– Porque o recheio dele vai mudar, você não ouviu? Largue essa torta agora mesmo! – Disse ela, autoritária ao extremo.

– NÃO! – Berrou Raul, irritado – Quer parar com isso? Porra, foda-se, me deixe comer a minha torta em paz! – Raul entrou em casa. Parou no corredor, e resolveu voltar, ainda achando que talvez não tivesse dito tudo o que tinha pra dizer – Cacete… Será possível que eu não tenho o direito de comer a minha torta em paz?

Durante algum tempo, silêncio. A mulher parecia irredutível; o homem, cansado.

– Por favor… Senhor… Por favor… – Pediu uma última vez o homem.

Raul reconsiderou e segurou a torta com a mão, pra baixo, um pouco desanimado.

– Tudo bem. Mas eu quero deixar claro que foi porque eu quis! Merda! – reclamou ele, baixinho, irritado com toda a história maluca.

Depois de alguns minutos olhando em silêncio para os estranhos, ele ficou impaciente de ficar ali, em seu jardim, rodando pra lá e pra cá, sem saber o que fazer ou dizer.

– Bem, olha, um dia eu vou ter que comer essa torta ou, sei lá, fazer alguma coisa com ela! – Exclamou Raul.

Então outro homem, muito similar ao primeiro desconhecido que apareceu em sua casa, veio correndo de um outro lugar e disse, dessa vez, com uma voz segura e rápida:

– Por favor, senhor, não faça isso. Meu recheio mudará consideravelmente pra pior se você comer essa torta. Qualquer pedaço que seja.

Raul olhou estranhamente para a mulher, que parecia estar se divertindo muito com aquilo tudo – Consideravelmente? – perguntou o aturdido dono da torta problemática.

– Sim.

– Como? Em que sentido?

– Eu não gosto de ervilhas. Além do mais, não gosto de comer com garfos. – disse o homem de voz grossa.

Raul riu dos três estranhos ali, uma risada louca, inconseqüente, um pouco desiludida, e desistindo de considerar mais coisa absurda alguma, deu uma mordida na torta.

– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOO!!! – Exclamaram, berraram, gritaram os três estranhos ali no quintal de Raul.

Raul riu ainda mais de si mesmo, dos outros, de tudo. Riu de seu quintal, riu da rua, riu dos visitantes, riu até de sua própria casa, as janelas, a porta, tudo, riu de tudo. Achava aquela cena apocalíptica uma loucura maravilhosa, uma verdadeira libertação. Enquanto o frango desfiado fazia-se sentir nos dentes dele, os homens o chamavam de “mal”, “perverso”, “terrível”, “lobo”, “demônio”, etc. A mulher chorava histericamente numa posicão estranha no chão.

Quando terminou de engolir o pedaço que havia pego, Raul olhou ao seu redor pra ver a destruição que havia causado. Todos estavam ali ainda.

Raul então, um pouco mais tranquilo quanto aos visitantes malucos, resolveu comer mais um pedaço da torta.

Mas havia algo de errado. A torta não era de carne com ovo.

Quando ele virou o rosto procurando por algo ou alguém que pudesse explicar o que estivesse acontecendo, viu um homem passando no meio da rua. Ele estava de olhos fechados, mastigando tranquilamente um pedaço de torta.

“Droga” pensou Raul. Ele compreendeu então o que aconteceu.

Mas antes que pudesse pensar a respeito, o homem de voz forte que tinha chegado depois já estava na sua frente. Enquanto Raul segurava a torta com a mão direita, ela voltada para cima, o homem tinha se aproveitado de sua distração, talvez, pra começar a colocar pimenta na torta.

– PUTA QUE O PARIU, O QUE É QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, CARALHO? – Perguntou, surpreendido, Raul.

– VAI SE FUDEEEEER, AGORA VOCÊ VAI TER O QUE MERECE!

O homem continuava calmamente colocando várias e várias pimentas, das mais fortes possíveis, em cima e dentro da Torta. Ia furando-a pra fazer com que o líquido da conserva de pimenta penetrasse em todo o alimento.

Depois que ele terminou, saiu rindo, e então, depois de se distanciar um pouco, parou, apoiado no muro do jardim de Raul, com um rosto satisfeito e suado. Ele riu então mais uma vez e respirou profundamente.

– Desculpe, Raul, mas foi necessário. – Comentou, satisfeita, a mulher.

– Droga. Eu queria ter feito isso – lamentou-se o primeiro homem.

E Raul? Raul continuava ali, com a torta sabotada na mão. Depois as pessoas saíram dali, aos poucos. E ele voltou pra dentro de casa. Passou todo o tempo ali, parado, em seu jardim, sentado no chão, olhando para a sua torta. Fria, com uma embalagem rachada, estragada pela pimenta, condimento que, em excesso, tornava um alimento intragável – mas além disso Raul não gostava muito de ovo (o novo recheio de sua torta era carne e ovo). Ele teve pena de sua torta, tão frágil, tão destruída, tão judiada. Pensou em todas as suas imperfeições e sentiu pena dela. Não quis mais encostar nela, em nenhum pedacinho sequer. Talvez ele pudesse ter recuperado umas partes. Talvez ele pudesse ter convivido com a pimenta. Ou não. Mas ele nem tentou.

Ele entrou em casa. Nunca mais foi visto.

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