Casamentos e Faculdades e as burocracias da vida moderna

Estava eu a silenciosamente concordar com Rev. Beraldo: amor é amor, casamento é contrato. Mas quando pensava em tudo isso acabei pensando em uma coisa:

Da mesma forma como as mulheres eram preparadas para o casamento desde cedo – tinham que ser prendadas – muitas pessoas hoje em dia são preparadas para a faculdade. Preparadas para a vida adulta, para a profissão, para o ganhar-dinheiro-casar-se-ser-bem-sucedido-bullshit-etc. É a mesma coisa. A emoção dos pais ao ver os filhos entrarem pra faculdade é análoga à emoção dos pais antigamente (e de muitos ainda hoje em dia) ao ver os filhos casando – digo muitos porque hoje em dia as pessoas casam e descasam tanto que desconfio que os pais desenvolvam até uma certa insensibilidade. Natural, afinal. Mesmo.

Mas dessa vez a relação é com o trabalho, não com uma pessoa. Se não com um trabalho com uma área do conhecimento, com um objetivo, etc. O que mata uma relação? A rotina. A obrigatoriedade. A desilusão. Ou às vezes o simples fato de no fim não ser aquilo tudo que era esperado – talvez justamente a expectativa de uma vida adulta perfeita cause a frustração no final – aliás, tem o dinheiro também. A frustração monetária. Pessoas se divorciam; algumas trancam e eventualmente deixam a faculdade, outras completam e não exercem a profissão (seria o caso dos que se mantém casados “for the kids”? Ou dos que se mantém casados por preguiça demais de se separar?).

Talvez haja algum tipo de característica ontológica comum ao casamento, à “faculdade” (digo, toda a ideologia descrita ali em cima) e etc: esse comprometimento burocrático, essa expectativa nascida do romantismo <enquanto período literário> (no caso do casamento) / espera por um futuro melhor em detrimento do presente (no caso da faculdade). Não sei, não sei. Sei que talvez exista um pessimismo tão “difundido” hoje em dia – seja por artes e filosofias que explorem a miséria humana, seja pelo consciente coletivo das pessoas que vemos por aí – porque há esse tal comprometimento com a própria vida – nós nos casamos com nossa própria vida. Aí algumas pessoas se “divorciam” numa desilusão semelhante à matrimonial.

Talvez pra amar nossa própria vida precisamos não nos casar com ela. Por mais tentador que possa parecer. É assim: gostamos de alguém. Gostamos de algo. Queremos nos prender, queremos ter certeza de que não vai desaparecer, queremos ter o controle da situação. Medo? Não sei. Acho que é justamente isso que nos tenta à frágil promessa que acaba tornando tudo mais sem vida…

Anúncios
Esse post foi publicado em KSTXI Agency - Rede Discordiana de Comunicação ´Patafísica e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s