Rede de Observação das Correlações do Coelho da Páscoa

por Rev. Victor

um oferecimento de #thegame23 – Enter the Rabbit Hole

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Estava lendo um livro do Robert Anton Wilson, “A Nova Inquisição”.
RAW, como os fãs costumam chamá-lo, é um futurista dos bem doidões, entusiasta de viagens intergaláticas, transferência de mentes, percepção extra-sensorial, comunicação com civilizações extra-terrestres e prolongamento da vida.

Já o conhecia pela “Trilogia Illuminatus”, que ele escreveu junto com Robert Shea à época em que eram editores da Playboy; pelo “Gatilho Cósmico”, uma abordagem mais esotérica e agnóstica à velha discussão conspiracionista; e pelo “A ascensão de Prometeus”, praticamente um guia prático de como testar outros “túneis de realidade” (na expressão do autor).

“Esotérico” e “agnóstico” na mesma frase pode soar um tanto estranho, mas tratando-se desse senhor me parece inevitável. Não há meios de saber se ele realmente acredita no que escreve ou se só quer confundir as mentes alheias, no que se assemelha muito ao próprio Charlie Não Surfe. E é ele quem logo afirma que a melhor saída é duvidar – daí o “agnosticismo metodológico” que marca sua obra.

Não é todo o dia que se vê um cético falando sobre chuvas de peixe (ou mesmo chuvas de ovos, bacon e salsichas), alienígenas que oferecem panquecas, e fuinhas que se auto-denominam “a oitava maravilha do mundo” ou “a quinta dimensão” ou “o espírito santo”.
Porque esses céticos que estão aí, esses de que o mercado está abarrotado, só sabem duvidar das coisas estranhas, das heterodoxias, do que não era para estar lá, do que as teorias não prevêem. Tudo muito sem graça. Como se as teorias não se originassem justamente de fatos novos.

O livro está repleto de afirmações fantásticas, observações inacreditáveis, teorias estapafúrdias, depoimentos muito duvidosos. Mas a discussão a seguir é tão interessante, e engraçada, que resolvi reproduzi-la (quase) na íntegra:

“Reuni essas histórias, originalmente da Rede de Observação do Coelho da Páscoa. Pode ser que isso seja não mais que uma paródia da mais conhecida Rede de Observação das Correlações dos Objetos Voadores Não-Identificados.
[…]
Na verdade, encontraram conexões de coelhos com óvnis. Batizaram, então, esse novo campo de estudo, ou a esta sátira acerca do amor humano por correlações, “lebrovnologia”.
Flying Saucer Review, novembro de 1978, página 17: um óvni visto roubando coelhos de uma gaiola.
UFO Phenomena e B.S., editado por Haines, página 83: um encontro de primeiro grau no qual o observador afirma que o ocupante do óvni parecia-se com um coelho gigante.
Saucer Gear, 10 de outubro de 1981: carta afirmando que a Comissão de Jogo do Estado da Pensilvânia está investigando um desaparecimento “misterioso” de coelhos.
Mais informações na Rede de Observações das Correlações do Coelho da Páscoa, dessa vez citando a Rede de Observação das Correlações dos Objetos Voadores Não-Identificados: no Fórum de 1984, dessa última rede, Budd Hopkins apresentou uma fita cassete a respeito de uma mulher que pensava ter sido abduzida por um óvni. Sob hipnose, ela relatou a história comum dos abduzidos, mas havia um detalhe interessante: antes de ela encontrar os extraterrestres, viu “centenas” de coelhos paralisados.
[…]
Rede de Observação das Correlações do Coelho da Páscoa citando John McPhee, Basin and Range: um imenso óvni visto imediatamente após o aparecimento de um grupo de coelhos dançando na estrada.
Common Ground (revista inglesa), número 7, página 5: o Homem Coelho é um mito, uma alucinação ou uma entidade desconhecida relatada em partes do Sul da Inglaterra. Testemunha recente diz te-lo visto imediatamente após ter visto um óvni. O Homem Coelho disse: “reze por mim”.
Rede de Observação das Correlações do Coelho da Páscoa, citando um livro chamado The Humanoids: em 1954, um fazendeiro em Isola, Itália, relatou que um óvni com forma de cigarro pousou em seu quintal. Três anões apareceram, pegaram todos os coelhos da gaiola do fazendeiro e retornaram para a espaçonave, que partiu em seguida.
[…]
Rede de Observação das Correlações do Coelho da Páscoa, citando The World’s Greatest UFO Mysteries, de Blundell e Boar: caso no qual uma aparição de óvni é seguida por um “curioso zoológico” atravessando a estrada: sete coelhos, um guaxinim, um gambá e diversos gatos.

Um desenho do Pernalonga, de 1952, apresenta o coelho sendo abduzido por extraterrestres; este episódio precedeu a abdução humana no estudo de óvnis.

O filme Monthy Python em Busca do Cálice Sagrado (1975) não somente contém cenas em que o Graal parece com um disco voador, como também apresenta um Coelho Assassino que fugiu de uma fantasia humorística para a realidade consensual, conforme somos informados posteriormente.
Um coelho aparece no momento em que o óvni pousa no filme E.T. de Spielberg, 1983.
O albúm de comédia “Not Insane”, do Teatro Firesign, inclui uma carta de um coelho com o carimbo do correio que diz “Deep Space”.

Na versão adaptada para o cinema de Spielberg do romance Contatos Imediatos de Terceiro Grau, coelhos correm na estrada antes da segunda visão de óvnis do herói.

A revista de ficção científica Analog, em sua edição de maio de 1979, contém uma carta de C. V. Haroutunai argumentando, satiricamente, que o Coelho da Páscoa poderia ser um extraterrestre utilizando uma tecnologia muito mais avançada que a nossa.

Michigan Quarterly Review, 18:200; contém a seguinte transcrição de vôo da Apollo 11:
Controle da Missão: Uma lenda antiga diz que uma linda garota chinesa chamada Chango tem vivido na Lua por mais de 4 mil anos… Vocês podem procurar sua companhia, um grande coelho chinês…
Michael Collins: Ficaremos atentos para a coelhinha.

O melhor momento da Rede de Observação das Correlações do Coelho da Páscoa merece ser reimpresso: “embora possamos estar inclinados a rejeitar essa conversa como brincadeira, deveríamos nos lembrar de que todos os astronautas na lua exibiram um comportamento evidentemente saltitante”.

Consideremos essa correlação: James Earl Carter (Jimmy Carter) foi o único presidente que presenciou um óvni. Posteriormente, também teve um encontro com um coelho assassino.
Whashington, 20 de agosto de 1979, Associated Press: “Um ‘coelho assassino’ infiltrou-se na segurança do Serviço Secreto e atacou o presidente Carter em uma recente viagem a Plains, Geórgia. De acordo com os membros da Casa Branca, o presidente revidou ao ataque auxiliado pelo remo de uma canoa”.
A história continua dizendo que os “repóteres não estavam certos a respeito do que aconteceu com o coelho”, e que algum membro da Casa Branca manteve uma posição cética acerca do incidente, dizendo que coelhos não nadam e não são tão perigosos. Uma foto foi apresentada e o presidente Carter ordenou que ela fosse ampliada para embaraçar os duvidosos. A foto era supostamente convincente. Um cético da Casa Branca é mencionado: “era um coelho assassino, o presidente estava lutando pela sua vida”. Mas a Casa Branca negou-se a tornar pública quaisquer fotografias.

A próxima frase da Associated Press é ainda mais sinistra e deveria atrair a atenção de peritos em conspiração, mesmo que eles tenham se preocupado anteriormente com óvnis e coelhos assassinos:
Há certas histórias a respeito do Presidente que devem permanecer para sempre envolvidas em mistério. – Rax Granum, vice-secretário de imprensa da Casa Branca.

Journal of Psycho-history, Volume 7, número 1, verão de 1979; o artigo “The Assassination in Dallas: A Search for a Meaning”, de James P. Johnson, observa que:
Harvey Oswald e Killer Rabbit têm 12 letras.
Jimmy Carter e John Kennedy têm 11 letras cada um. Ambos os presidentes eram democratas.
Kennedy foi morto em um Ford. Carter derrotou Ford para se tornar presidente.
Plains e Dallas têm o mesmo número de letras, e ambas estão a 32 graus de latitude.
As fotos foram negadas em ambos os incidentes.
Ambos os incidentes aconteceram no terceiro ano das presidências das vítimas.
Nenhum coelho assassino foi levado a tribunal.”

Mas há outras coisas ainda mais interessantes, das quais o autor nada fala (porque não sabia a respeito ou porque simplesmente ainda não tinham acontecido).

– As coincidências com o número de letras não impressionam nem um pouco, mas talvez comecem a fazer um pouco mais de sentido – ou um pouco menos – quando se sabe que Harvey Oswald era conhecido na marinha como “Ozzie Rabbit”.
(Por coincidência, Kerry Thornley, posteriormente mais conhecido como “Omar Khayyam Ravenhurst”, co-criador do Discordianismo junto com Greg Hill, ou “Malaclypse, the younger”, serviu no mesmo regimento de Harvey Oswald, onde se conheceram. Mais tarde, Thornley acusaria a CIA de fazer experiências sobre controle mental e LSD com os recrutas – levantando, inclusive, suspeitas conspiracionistas de que Harvey Oswald estaria, na verdade, sob influência hipnótica quando baleou Kennedy. Mais curioso ainda é que em Illuminatus, o Robert Anton Wilson – sim! esse mesmo dos coelhos e óvnis -, criou um personagem chamado Joe Malik que após ser abduzido por extra-terrestre dá início a uma estranha seita religiosa, o discordianismo! Malik se rebatiza com o nome sagrado de “U. Wascal Wabbit”, que é como o hortelino chama o pernalonga – não se esqueça que o pernalonga sofreu a primeira abdução pop, abdução “propriamente dita”, da história. Robert Anton Wilson também redigiu o prefácio da bíblia discordianista, Principia Discordia OR How I Found Goddess And What I Did To Her When I Found Her – Wherein is Explained Absolutely Everything Worth Knowing About Absolutely Anything, escrita por Malaclypse, The Younger.)

– Harvey era como se chamava o coelho de dois metros de altura, amigo imaginário de Elwood P. Down (interpretado nos cinemas por James Stewart).

– Recentemente o tema “coelho gigante como amigo imaginário” voltou às telinhas com o filme, hoje cult, Donnie Darko. Muitos especialistas em UFO acreditam que os chamados “extra-terrestres” não são de outros planetas, mas sim viajantes do tempo (talvez nós mesmos, no futuro) ou seres de dimensões paralelas.

– Ainda no cinema, um dos primeiros filmes da Turma da Mônica contava justamente a história da abdução da turminha por uma raça de coelhos de outro planeta.
Coelhos robôs espacias aparecem recorrentes vezes nas histórias em quadrinho do Maurício de Souza, principalmente nas mais antigas.

– Em 1803, um estranho objeto discoidal apareceu flutuando no mar, na região de Hitachi, a 150 km de Tóquio. O objeto foi rebocado por pescadores até a praia, atraindo a atenção de todos os moradores locais. Deste objeto saiu uma mulher de aparência estranha, que trazia consigo uma caixa. Em nenhum momento ele largou a caixa e a protegia como se ela fosse de muita importância. O episódio é relatado pela primeira vez no livro As Anedotas do Jardim dos Coelhos, da primeira metade do século XIX.

– Em 2003, na província de Córdoba, um dia após o avistamento de um grupo de OVNI’s, encontrou-se corpos decapitados de dezenas de coelhos. Nenhuma cabeça foi achada. A chacina é oficialmente atribuída a uma gangue de ratos assassinos.

– A deusa Maia da Lua é comumente representada carregando no colo seu animalzinho de estimação, um coelho.

– Fotos tiradas pela NASA da superfície do planeta Marte parecem revelar algo semelhante a uma cabeça de coelho.

– A minha amiga Mary tem um coelho, chamado Dexter, que há certa altura passamos a dizer que era marciano. Talvez seja mesmo.
Mary (Chase) também é o nome da escritora de Harvey, o romance que conta a história de Elwood e seu pooka imaginário, e que mais tarde seria adaptado para o cinema (disso já falamos).
E Mary Toft era como se chamava célebre britânica que em setembro de 1726 começou a dar luz a coelhinhos (na verdade, coelhos mortos, e na maioria das vezes aos pedaços). A farsa não dura muito: pressionada pelos médicos responsáveis por investigar o caso, Mary confessa que apenas tinha inserido coelhos mortos na vagina “enquanto ninguém estava olhando”, motivada por um desejo de fama e pela esperança de uma pensão paga pelo Rei.

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