Delinquentes de Curitiba

[Matéria de 2004, quando os Delinquentes estavam no auge de seus ataques]

 

Com a descrição de suas ações mirabolantes e divertidíssimas contra casas da burguesia esnobe e estabelecimentos comerciais de empresários maquiavélicos, os Delinqüentes de Curitiba conseguiram fama na internet, mesmo com as dúvidas sobre sua existência além do blog.
A capital paranaense vem servindo como pano de fundo para um instigante dilema da internet: seriam verdadeiras as histórias dos Delinqüentes de Curitiba? Com a descrição de suas ações mirabolantes e divertidíssimas contra casas da burguesia esnobe e os estabelecimentos comerciais de empresários maquiavélicos, os Delinqüentes conseguiram fama na parada obrigatória de qualquer ativista que se preze na internet, o Centro de Mídia Independente, CMI na sigla. Tudo isso por causa do famigerado blog onde Ari Almeida, um dos Delinqüentes, posta tudo sobre os ataques e outras de suas considerações.

Ari e seus companheiros já provocaram ojeriza nos freqüentadores de um shopping e apavoraram seguranças e funcionários do McDonald”s, quando levaram crianças de rua para comer no fast food. Já soltaram centenas de baratas em uma sala de cinema e levaram uma catadora de papel para um salão de beleza chique. Invadiram a transmissão do Jornal Nacional em um bairro residencial usando equipamentos de radiodifusão simplórios e por duas vezes se utilizaram de fezes em seus ataques – os alvos foram uma agência bancária e uma fábrica de automóveis.

Nem a segurança dos próprios Delinqüentes está assegurada. Alguém sempre sai machucado, com alguma parte do corpo quebrada, depois de cair de tanto muro e telhado que eles insistem em escalar. Nos dois ataques envolvendo fezes por exemplo, Ari teve que voltar para casa com alguns “resíduos” dessas ações.

Ari Almeida desafia o mundo sem sair do computador no escritório onde trabalha. É na hora do almoço, apressado e com medo de ser repreendido pelo chefe que pode aparecer a qualquer momento, que ele digita o relato das ações que empreende junto com sua “gangue”, do bem. A descrição dos ataques é primeiro postada no blog dos Delinqüentes e dali ganha a atenção de diversas pessoas na rede, a maioria como Ari: “Eu estava contando pra gurizada coisas que tinha aprendido lendo textos subversivos, defendendo o vandalismo & barbárie (…) e pintou a idéia [das ações]”.

O blog, o CMI e um bafafá microscópico perto da grandeza da internet são toda a popularidade que Ari não pediu para ter, mas acaba aceitando. Os delinqüentes não tiram fotos de seus ataques para não chamar a atenção da mídia, potencial “legitimadora de seus discursos com opiniões dissidentes”, criando estereótipos dos quais Ari e sua trupe fogem.

As ações em Curitiba começaram em junho de 2003, coincidentemente ou não junto com a moda do Flash Mob no hemisfério norte, que logo chegou ao Brasil recebendo cobertura maciça da imprensa. Ari então correu pro blog para tentar desassociar as duas coisas: “Se tivéssemos fotos e provas de nossas ações é provável que alguma revista ou jornal nos comparasse a eles [Flash Mob] e pronto, ficaríamos nacionalmente conhecidos”.

Flash Mob, ficar famoso no país inteiro? “Sai pra lá satanás, xô rotulismos!”, é o que grita Ari Almeida. Ainda mais porque não dá pra encontrar semelhança entre um bando de geeks no meio da Avenida Paulista com cartazes “Contra burguês baixe MP3” e os Delinqüentes soltando centenas de baratas dentro de uma sala de cinema. Flash Mob é pop, os Delinqüentes são mesmo black metal poético.

Mas baratas e o escritório onde Ari trabalha poderiam não ser reais e sim fruto da mente criativa do sr. Almeida. Os Delinqüentes já não tiram fotos e escolheram a nada confiável internet para noticiar aquilo que eles não podem provar. O resultado é uma pequena avalanche de críticas daqueles que acompanham as aventuras dos Delinqüentes. Aventuras, porque tudo pode não passar de ficção. “Essa possibilidade existe e gostamos dela”, Ari entrega.

Um romance muito bem construído, é necessário dizer. A narração dos ataques é cinematográfica. Não há como não se ambientar nos lugares descritos, depois de algum tempo de contato, a kitinete onde são planejadas as ações passa a ser como a segunda casa do leitor. Se bem que nem kitinete há mais: a história evolui e hoje os personagens delinqüentes vivem em um porão. Sinal de que nem eles estão há salvo de serem incluídos só um pouco mais na sociedade contra a qual costumam protestar tanto. A periferia, os porres homéricos, a classe alta ostentadora e os diálogos nada católicos completam o clima fantástico das histórias. Ari tem destreza com as palavras além de cativar com o vício de ligar dois adjetivos, escritos em letra maiúscula, com um “&”.

No entanto relatos desesperados pedindo a ajuda dos leitores para solucionar casos como o de vários aluguéis atrasados da antiga kitinete e as desculpas de Ari por não postar nada no blog depois de uma crise intestinal pós-ataque, só nos deixam cada vez mais em dúvida, negando-nos o direito de tomar uma posição de meros expectadores ou de seguidores fiéis da causa. Em cima do muro, sem vergonha nenhuma.

Pelo menos, e já é essa uma grande coisa, Ari se sente satisfeito por estar fazendo algo, ajudando as pessoas a combaterem o inimigo interno que destoa nossas vontades e pensamentos depois de uma vida inteira assistindo aos intervalos comerciais entre os enlatados do Tio Sam. Quando Ari oferecer as duas pílulas, pegue a azul, porque a vermelha pode acabar um pouco com a graça toda.

Com vocês agora, Ari Almeida, delinqüente assumido:

Quem são
“Vinícius estuda e trabalha pra passar num vestibular enquanto faz bicos como músico. Jean trabalha de moto num serviço de tele-entrega e todo começo de ano volta a estudar e todo meio de ano desiste de estudar. Eu, trampo num escritoriozinho sem futuro. Fábio mora com os velhos, tenta sair de casa e vive fazendo planos de vida mirabolantes sem nunca levar nenhum a sério e Sérgio é uma dessas almas de artista, que nunca se encaixam na normalidade da sociedade. Enfim, temos tudo pra dar errado, somos um caco de vidro esquecido na areia da praia, esperando alguém pisar em cima”.

O começo
“Não foi nada planejado. Nada do tipo: vamos montar um grupo e começar a realizar ações contra tal coisa. (…) Éramos amigos que tinham em comum a cara de pau e o descontentamento com o estado das coisas. (…) Apesar de não passarmos de um bando de delinqüentes, gostamos de acreditar que estamos em luta contra um sistema opressor, e para isso usamos conceitos libertários e ‘causas’ que nos atraem de um jeito ou de outro para justificar nossos ataques”.

Exposição na mídia
“O que ganharíamos com isso? Nada, absolutamente nada, no máximo ficaríamos presos a uma imagem ou a um estereótipo criado por outros. Banalizaria tudo e perderíamos o impacto.

Os hippies usavam roupas desleixadas para contestar a sociedade, não demorou pra que aquelas roupas custassem fortunas nas butiques. O mesmo se pode dizer das calças rasgadas dos punks e das estampas do Che Guevara. É difícil lutar contra um inimigo desses. Evitar que sua revolta se volte contra você é uma de nossas principais preocupações e enquanto não encontramos uma solução, seguimos em nossa batalha solitária e silenciosa”.

Inimigo interno
“Depois de décadas de bombardeio publicitário e de falsos desejos impostos pela propaganda, fica muito difícil saber quais são nossos verdadeiros desejos. Outra coisa é que para o sistema funcionar adequadamente, todas as pessoas devem se comportar de certo modo, devem reagir de certo modo e até pensar. Antes de se fazer qualquer coisa deve-se identificar e combater esse inimigo”.

Repercussão
“O CMI acabou sendo muito útil no sentido de que os argumentos contrários de quem não concorda com nossos atos, servem pra que a gente aprenda e até, em certos casos, admita alguns erros. Por exemplo, no ataque dos meninos no shopping, muita gente falou que usamos as crianças. Não deixam de ter razão, não fizemos mais isso”.

Balanço da delinqüência
“O que me faz feliz é saber que fazemos arte e ninguém se liga nisso. Enquanto as pessoas não tiverem certeza absoluta nossa segurança e anonimato estão garantidos. Mostrar fotos seria praticamente fazer o trabalho da polícia, afinal, provas não é o que a polícia desejaria pra nos colocar na cadeia. [Na internet] as regras são diferentes, aqui é um território que se alguém disser que conhece bem está sendo desonesto”.

Delinquentes de Curitiba – a série

Muitas pessoas perguntam – e com razão! Porque eu, que na época era tão avesso à mídia, agora estou me rendendo. Não tenho uma resposta simples para dar. Arrisco dizer que talvez nem tenha uma resposta. Minha atitude é movida muita muito mais pela intuição do que por uma motivação.

Passaram-se quinze anos desde que os eventos relatados no Manual Prático ocorreram. O mundo mudou muito desde então. E pra pior. Como civilização estamos à beira de um colapso. Como sociedade, já estamos colapsados.

O que fazíamos na época era pura vanguarda louca, hoje é algo necessário, urgente, crucial. O tempo mudou e ele está se esgotando.

Os Delinquentes. Aqueles arruaceiros que tantos odiavam amar e outros tantos amavam odiar, com o tempo deixaram de ser pedras para serem vidraças. Agora são pais de uma geração que está e ainda vai pagar a conta de algo que não consumiram.

Passaram-se quinze anos desde que o delinquente.blogger conseguiu seu lugar ao sol graças às possibilidades fornecidas por uma Internet adolescente. A Internet mudou muito desde então. E pra pior. O que era uma deliciosa utopia tornou-se uma perniciosa distopia.

Um delinquente.blogger não seria possível nos dias de hoje. Morreria seco e nas sombras.

É chegada a hora de novamente sermos realistas e exigirmos o impossível.

E quem atualmente tem cacife para exigir o impossível? A geração que está com o boleto da conta na mão. Uma conta impossível de ser paga. Uma geração que escarnece de toda e qualquer possibilidade de solução via democrática e que – justamente por isso e apenas isso, está à mercê de antigas e perigosas ideologias. Por pura falta de opção.

O Manual Prático de Delinquência Juvenil é uma opção.

Todo jovem hoje é uma bomba relógio, um caco de vidro na areia da praia, um acidente esperando acontecer. Falta-lhes uma válvula de escape. A delinquência é essa válvula. Não os Delinquentes do Manual como ídolos, mas como uma ideia. Uma ideia sem ideologia.

Só que ideias, como memes que são, precisam de um meio propício para ser propagadas. A Internet é o único meio disponível, mas como?

No meu tempo usei um blog, hoje terei que a pelar para o Youtube ou o que for para disseminar a ideia, o espírito, a paudurecência de uma delinquência juvenil divertida e subversiva.

O caos, que precisava ser underground, agora necessita ser pop. ”

– Ari Almeida

 

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